倫敦 ou Londres?



Ontem, em reunião de vereação da Câmara Municipal (CML), foi aprovada por unanimidade uma proposta do CDS para que o município embargue as obras já em curso no antigo cinema Londres, que visam transformar o espaço numa loja chinesa. O problema coloca-se quando a CML não consegue encontrar fundamentação jurídica para que tal aconteça.

A autarquia deveria deveria ter agido mais cedo. Poderia, em 2013, ter adquirido o edifício à Socorama, que abriu falência, justificando a aquisição com situações de expecionalidade, como sejam a nítida situação de declínio do bairro onde se situa o "Londres", já afectado pelos encerramentos do "Quarteto" e do "King", bem como o facto do imóvel integrar um conjunto de edifícios de interesse municipal.

Não o fez e agora, apesar da boa vontade que demonstra, não consegue impedir que um bairro como o de Roma-Alvalade perca o seu maior pólo cultural. Porque o projecto de quem adquiriu a sala-estúdio também é legítimo à luz da lei.

Ontem, o vereador Manuel Salgado fez um apelo à Secretaria de Estado da Cultura (SEC) para que esta, através da Inspecção-geral das Actividades Culturais, não autorize a afectação do "Londres" a outra actividade que não a de cinema.

Resumidamente:

- a CML não quer que o "Londres" se transforme numa loja de produtos chineses, mas não revelou proactividade quando poderia e deveria tê-lo feito;
- os moradores da zona não querem ouvir falar no desmantelamento da sala;
- o Movimento de Comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, Praça de Londres e Avenida de Roma muito menos;
- o bairro, onde eu vivi e que por isso conheço bem, está a morrer e um polo de dinamização cultural poderá ser essencial para lhe dar uma nova dinâmica. O "King" e o "Quarteto" já fecharam. Circular na Avenida de Roma às nove da noite é absolutamente assustador.

Resta esperar que a SEC aceite os apelos da CML bem como a esta proposta feita pelo Movimento de Comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, Praça de Londres e Avenida de Roma, prevalecendo a vontade da autarquia, dos moradores e dos empresários locais e, digo eu agora, o interesse público, apesar de reconhecer a razoabilidade da argumentação dos investidores chineses.