Obviamente

As conclusões da primeira reunião do Conselho Municipal de Cultura são óbvias. A frase não pressupõe uma crítica, nem um rasgado elogio.

É óbvio que houve falta de estratégia ao longo dos últimos anos. É óbvio que a cultura não pode ser vista como uma despesa mas sim como um investimento, devendo ser encarada como um sector económico potenciador de emprego e gerador de riqueza, sendo por isso desejável fomentar-se o empreendedorismo. É óbvio que numa cidade como o Funchal as manifestações culturais devem ser descentralizadas porque se o forem, trarão efeitos positivos para as economias locais. É óbvio que se deve trabalhar em rede e fomentar parcerias, acrescentando eu que essas parcerias terão de extender-se a entidades externas. Todos estes pontos estavam no programa da Mudança, estavam no programa do CDS, estariam em parte no programa do PCP...

Não fugir do óbvio é uma vantagem. Neste caso, será mesmo um passo em frente mas, há sempre um mas, é um passo curto, quando existem oportunidades para que seja mais decisivo.

Tal como nenhum médico prescreve um diagnóstico sem analisar o paciente, um projecto para mudar a face das indústrias culturais e criativas deve começar... pelo começo, por um trabalho sério de diagnóstico daquilo que existe, dos nossos pontos fortes, dos nossos pontos fracos e das oportunidades que ambos geram.

Seria pois urgente começar por mapear o ecossistema cultural e criativo da cidade, envolvendo nesse projecto uma instituição académica de méritos reconhecidos.

A partir do diagnóstico, poderia mais facilmente definir-se o caminho a seguir, com propriedade, maximizando o potencial existente e procurando diminuir os pontos fracos.

Poderiam ainda descobrir-se potencialidades que não são visíveis numa análise superficial porque (e eu concordo com aquilo que escreveu há tempos o Maurício Marques), o Funchal vive uma fase criativa muito interessante.

Percebo que politicamente seja necessário começar a mostrar trabalho. Mas entendo também que muitas vezes, os timings puramente políticos não se coadunam com as reais necessidades de transformação. Neste momento, existem oportunidades para acrescentar qualquer coisa ao óbvio.

A ideia da Capital Cultural do Atlântico como guarda-chuva para actividades culturais que projectem a cidade não sendo nova,tem méritos, mas deveria partir do diagnóstico supracitado. Porque numa orquestra eu posso querer tocar todos os instrumentos, sendo certo que se o fizer não tocarei bem nenhum, também na definição de um projecto cultural que posicione nacional e internacionalmente o Funchal devo perceber que instrumentos posso tocar, ou seja, quais são as áreas de actuação prioritárias, aquelas em que realmente poderemos ser competitivos e que trarão mais-valias económicas para a cidade.

Resumidamente, a capacidade de dizer o óbvio está instalada o que, repito, já é um passo em frente, esperemos agora pela capacidade de fazer o óbvio e desejável. Esperemos ainda que exista vontade política de acrescentar mais qualquer coisa, dando um passo maior.

Deixo uma nota final:

- A ideia de criar o Conselho Municipal da Cultura é boa. Conheço a maioria das pessoas que o integram e estou em crer que não serão - pelo menos aquelas com as quais me relaciono - uma espécie de instrumentos de legitimação da decisão política da autarquia aos olhos dos agentes culturais, porque se o fossem, estaríamos a perder tempo;