Quando cada pergunta tem mais do que uma resposta

Durante duas horas, corremos atrás da bola, cada um do seu lado da rede, procurando ocupar o espaço que lhe pertence e que se vai tornado maior à medida que os minutos passam. Não gostamos de perder. Nem eu, nem tu. Mas no início das tardes de sábado, estamos sempre, apaixonadamente, em lados opostos do court de ténis.

Às vezes, os caprichos da bola decidem o resultado de um ponto. Quando ela toca na tela e fica ali, durante horas-milésimos-de-segundo, a escolher quem premiará, para que lado cairá. E nós aguardamos de olhos bem abertos, sabendo que naquela situação, qualquer esforço é uma perda de tempo

Não sei se viste, mas Woody Allen, em “Match Point”, aflora a questão. A bola suspensa na rede decide a sorte das personagens.

Mas deixemo-la oscilar, à luz dos seus caprichos, ou dos desígnios dos deuses do jogo. Enquanto isso, a vida decorre, passado e presente misturando-se a uma velocidade vertiginosa. É sobre isso que podemos falar, enquanto esperamos.

Primeiro foram os livros, espalhados pela casa. Dezenas deles, de que eu me fui apropriando, na medida em que folheá-los é sempre um processo de apropriação.

Estavam na sala, uns no chão, outros num móvel pós moderno com as pernas meias tortas, outros em cima da mesa de jantar.

Como sabes, hoje continuam desarrumados, agora na minha sala. Num móvel que está a ficar torto, num carrinho de chá que era teu, em cima da mesma mesa de jantar,

que me foi dada pela minha mãe, provavelmente porque saberia o destino que teria.

Os livros são outros, mas digo-o sem qualquer estranheza, parecem-me os mesmos.

A bola ainda não se decidiu, pois não? Continuemos, guiados por uma forma bonita de ver as coisas. Quase sem dogmas.

Um dia, tive de responder a uma estranha questão num trabalho de casa de quarta classe no “Caroço”, onde também estudaras. Perguntara a Dona Octávia o que era o arco-íris. Respondeste-me tu que não seria mais do que a prova da aliança de Deus com os homens.

Levei a solução e a minha firme crença na sua infalibilidade. Juro-te que foi a primeira vez que vi a Dona Octávia sorrir, dizendo-me que eu estava errado.

Eu (tu) dera uma explicação poética para um facto científico o que, não estando certo, merecera paradoxalmente um sorriso de aprovação, prova de que todas as perguntas merecem mais do que uma resposta.

Como vês, guardo essa história até hoje, como elemento fundador de uma certa maneira de ver o mundo. Se quiseres, o arco-íris daquele dia ensinou-me que um verdadeiro processo de transformação começa no respeito pelos outros, pelas suas crenças, pelas suas convicções, pela realidade que condiciona os seus atos. E também pelos caprichos da bola na rede sendo isso Dostoievski, Miller, Herberto, gente que me foste apresentando, direta ou indiretamente

(O Luís Filipe terá certamente uma história semelhante, que um dia contará).

A bola continua a cirandar por ali. Olho para o outro lado da rede e vejo que continuas igual. Elegante, mesmo envergando um polo de ténis.

Honesto, mesmo quando marcas fora uma bola em cima da linha

e depois ris e dás o braço a torcer.

Inteligente na forma como te movimentas em campo e tentas antecipar a jogada do adversário

que nunca é inimigo,

crente

quando crês na possibilidade de inverter um resultado de 1-5, quando acreditas convictamente de que nada está perdido.

O tempo vai passando e a bola finalmente toma um rumo. Sabes que mais, a decisão dos deuses do jogo é a menos importante de todas. Nem sei bem para que lado pendeu. Sábado há mais uma partida e só naquelas duas horas-milésimos-de-segundo é que estaremos em campos opostos. Ambos com uma inabalável certeza de vitória. Ambos rindo e dando o braço a torcer depois de considerar fora a bola que é dentro. Ambos tentando antecipar o movimento do outro. Ambos iguais na forma apaixonada de ver quer o jogo, quer a vida.

No resto do caminho, partilhamos o mesmo lado do court, independentemente das escolhas de cada um. Porque existe sempre mais do que uma resposta para cada uma das perguntas que a vida nos coloca.

Até sábado.

Nota: Texto publicado hoje no Diário de Notícias, a propósito do Dia do Pai