Mão Morta

Vivemos tempos inacreditáveis. Os Mão Morta, banda da qual gosto, têm um novo disco e lançaram um vídeo no qual Adolfo Luxúria Canibal (o vocalista) aparece a matar um suposto polícia, um suposto padre, um suposto político.

O Portugal do politicamente correcto ofendeu-se. É um apelo à violência, clamam alguns. Não, meus caros, não é. É apenas um vídeo (que por sinal não é grande coisa) de uma banda que sempre foi conhecida por ter letras muito pouco alinhadas.

Na maioria dos casos, o politicamente correcto vem associado a doses muito grandes de ignorância, no assunto em apreço sobre o percurso de uma banda que já cantou Heiner Muller (No restaurante do hotel a inocência dos ricos/O olhar fleumático sobre a fome no mundo/O meu lugar é entre as cadeiras O meu sonho/Cortar a garganta engelhada da viúva na mesa vizinha/Com a faca do criado/Que lhe trincha o lombo de cordeiro), que tem uma canção de nome Charles Manson (Quando o Charles Manson sair da prisão/É que vai ser/Parem o relógio/Vamos todos para a revolução/Fazer a festa de cocktail na mão), que diz, desde 2008, que há muito tempo nesta latrina que o ar se tornou irrespirável e que por isso a revolução é o remédio para os que morrem de tédio, que no longínquo ano de 2001, tempo em que éramos todos ricos, clamava, entre muitas outras coisas, que quem ganhou ganhou/O que alguém perdeu/A menos que todos percam/Nesta luta sem rosto/Que nos consome o presente.

Os Mão Morta têm excelentes discos. Algumas das canções que editaram ao longo dos 30 anos de carreira são muito bem escritas, quer sejam sobre charros em Budapeste, sobre um homem que acarta cadáveres pelas ruas numa cidade em ruínas, sobre gin tónico, sobre facas em sangue (e amor), ou sobre muitos outros fantasmas que povoam o imaginário do vocalista e letrista.

Os Mão Morta são apenas uma (boa) banda de rock. Tocam há 30 anos. Têm um universo particular. Não me parece que alguma vez tenham pretendido por em causa a segurança de quem quer que seja ou do estado.

A polémica que o vídeo agora apresentado criou é reveladora de uma imensa ignorância, normalmente mãe (e pai) do politicamente correcto.

Vivemos tempos inacreditáveis, nos quais o medo traz de volta a suposta necessidade de uma censura da qual julgávamos estar há muito livres.