O Shop Suey pode ser indigesto

A Realpolitik aconselha, sobretudo nas relações entre estados, prudência e, diria eu, caldos de galinha, porque como diz o bom povo, tanto um como outro nunca fizeram mal a ninguém. Após estas duas constatações, dignas de La Palisse, meto uma observação: - nem a Realpolitik obriga a que um chefe de estado de Portugal inaugure, com pompa e circunstância, uma exposição no estrangeiro, da qual artistas  portugueses foram censurados e banidos. O caso passou-se na China. O Dr. Cavaco inaugurou uma exposição no World Art Museum de Pequim que era constituída por trabalhos de fotografia e vídeo de mais de 20 criadores lusos. Até aqui tudo bem? Não, tudo mal. Eu diria até, tudo péssimo. É que horas antes da abertura, o filme "Alvorada Vermelha", de João Pedro Rodrigues e João Guerra da Mata foi censurado pelas autoridades chinesas, tal como a instalação de Miguel Palma, "Yami Shop Suey". Os próprios catálogos da exposição foram confiscados pela censura. Mesmo assim, Cavaco esteve lá, sorridente, a cortar a fita, presumivelmente ao lado do censor. A Presidência da República diz que não sabia de nada. A hipótese minora o erro, mas não iliba o Dr. Cavaco, que não sai bem na fotografia. Alguém falhou e terá necessariamente de ser o Presidente a assumir o erro. Era de facto bom que se percebesse em Portugal, de uma vez por todas, que as relações entre estados, como entre pessoas, afirmam-se também pelo afirmar das convicções de ambas as partes. Já agora, eu nem quero colocar a hipótese do Dr. Cavaco saber do acto de censura e, mesmo assim, ter ido à inauguração. Isso seria demasiado grave...