O Cavaquismo acabou?


O Cavaquismo termina amanhã? A História julgará, demonstrando os méritos e deméritos do homem que o corporizou.
O Cavaquismo, por si, não tem sustentação teórica, sendo antes resultado de apropriação. Olhando para os tempos de Cavaco primeiro-ministro, é fácil perceber os elementos alvo de apropriação. As linhas orientadoras do discurso e, parcialmente, da praxis política traduzem os anseios que eram expressos pela sociedade portuguesa de então. Modernidade, Europa e defesa do chamado Estado Social. O Cavaquismo procurou responder a esses anseios, mas de igual forma, moldá-los e timidamente, ensaiou a construção do homem novo. Nada de novo. A modernidade e a Europa eram, desde o século XIX, palavras nucleares do discurso político português.
O Cavaquismo não foi a ruptura liberar que parte da direita esperava, desde Sá Carneiro. Pelo contrário, foi estatista. Como quase todos antes dele. Como quase todos depois dele.
O Cavaquismo só foi revolucionário no sentido em que substituiu parcialmente as elites que, tradicionalmente, ocupavam o poder. Os jovens turcos de Cavaco eram self made men que com ambição desenfreada ocuparam o aparelho de estado, com a benção de Cavaco e perante a fúria dos novos desapossados. A ocupação do estado como garantia de sobrevivência política não encerra nenhuma novidade em Portugal.
O Cavaquismo, sendo político, paradoxalmente abominava a política, porque detestava o debate e a retórica políticas. Procurava, antes, o unanimismo. Nada de novo.
O que foi o Cavaquismo? Em que medida Cavaco foi criatura ou criador? O Cavaquismo é produto de um tempo e resultado da ação central de uma personagem, terminando quando ela acabar politicamente? Duvido.
Acredito, sim, que o Cavaquismo andará sempre por aí, sob outro nome qualquer. Porque no fundo, traduz uma forma portuguesa de gerir o estado e os assuntos públicos. O termo (forma) nasceu com Cavaco e com ele morrerá. O conteúdo nasceu antes de Cavaco e a ele sobreviverá.